quinta-feira, 19 de abril de 2007

Pequeno Diálogo Entre o Caos e a Ordem - (Inspirado na Cosmologia de C. S. Peirce)

“...o mundo é chaos e cosmos, mas jamais sem sentido...”
(trecho da aula do dia 02/03/2007)


Descompromissadamente instalado num hiato do Tempo, o CAOS convida a ORDEM para um diálogo:

CAOS: Estás sempre comigo e pouco conversamos, tão ocupados estamos neste Universo. Do interior de uma de tuas criações, o Tempo, uma de nossas criações, o Homem, denominou-me CAOS. Sou, em verdade, Liberdade Absoluta, advinda do Primeiro Continuum. Fragmentado, tal Continuum deu origem a mim. Produzo Arte e seduzo olhares deste Universo, que por Ela se interessam. E a ti, que nome deram?

ORDEM: A mim atribuíram o nome de ORDEM. Entretanto, devido a ti, sou apenas parcial neste Universo. De ti me originei, como tendência tua de adquirir Hábitos. Como sabes, estou ainda em formação. Sou teus Hábitos, conquanto, em mim, tu não te esgotas. Estás, sempre, menino, pincelando de assimetria o que faço simétrico, introduzindo acidente no que torno essência. Produzo Mediação que seduz olhares interessados em Ciência, que têm fascínio por decifração.

CAOS: Se bem entendi, és de mim um outro lado, assim como sou a outra face da Unidade Primeira. Fantástico isto! Não obstante, veja como sou, de ti, diferente: enquanto brinco na Existência, impões a Ela permanência e regularidade. Enquanto, por exemplo, te empenhas em fazer, num certo pontinho do Universo, o sol se pôr, eu me divirto em pintar o céu dos homens. Cada dia ocorre-me uma idéia diferente para fazê-lo. Jamais me repito; és pura redundância. Enquanto me instalo no Não-Tempo, és real, apenas, na temporalidade. Não te enfadas desta missão?

ORDEM: Em absoluto! Para mim é muito divertido observar o que falam de mim! Os seres deste Universo têm me representado dos modos mais interessantes. Particularmente, os Homens, ao longo de sua pequenina História, têm levantado as mais estranhas hipótese sobre como sou! A Ciência que fazem melhorou muito, mas têm tanto que aprender! Missão, mesmo, é tornar possível o pensamento. Sem mim, o que poderia ser dito? Nem teu nome seria possível, menos ainda o das lindas rosas que pintas e que faço permanecerem rosas.

CAOS: Devo reconhecer tua importância. Sempre que, para eles, somente eu apareço, emudecem! Quando, todavia, estás comigo, deles toco o coração, enquanto fazes, neles, crescer a inteligência.
Creio que nenhum deles percebeu, ao contemplarem o que faço, ter, dentro de si, o segredo de minha própria origem. Aquela Unidade Primeira, algo tão antigo! Toma-lhes a consciência um Todo, gênese de criação possível, síntese originária para a descoberta real. Sabem eles disto?

ORDEM: Duvido! Pretensiosos, acham-se o centro do Universo. Não é espantoso? Um dos seus divertimentos, que chamam, se não me engano, Filosofia, supõe, hoje, que não existo! Que sou, tão-somente, Lógica da Linguagem. Não é estranho?
CAOS: Gostaria de ver como afirmariam isto ou qualquer outra coisa sem ti! Sequer a tinta seria tinta, o som seria som, a pedra seria pedra, o papel, papel!
Se não existisses, seria eu o único artista deste Universo, sem alguém, sequer, a contemplar minha obra. Quanto mais pensarem-te existindo dentro deles, tão-somente.

ORDEM: Alguns de seus ancestrais, também praticantes desta tal Filosofia, reconheceram-me, e a ti também. Depois te abandonaram, supondo-me único e acabado, como um relógio do Mundo. Agora, baniram-me totalmente, dizendo-se organizadores da Natureza, afirmando não terem certeza de mim.

CAOS: Por tudo que vimos, parece que teremos que aguardar futuras gerações que reconheçam nossa verdadeira natureza.

ORDEM: Sim, aguardemos. Certamente descobrirão que não somos meras palavras.

CAOS: E o que sugeres, agora?

ORDEM: Falemos do restante do Universo, certamente mais sábio e interessante!

(http://www.pucsp.br/pos/cos/interlab/ivo/index.html#texto1)

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